Terça-feira, 10 de Março de 2009

Entrevista a António Câmara (YDREAMS) - o empresário que sonhava ser ténista

 

“ Um dia, o computador terá uma       
 
 
ligação directa ao cérebro humano”
 
 
V
estido de forma casual, António Câmara aparece na Fundação Portuguesa das Comunicações para participar na conferência “Os Computadores do Futuro”. Este homem, de origens modestas, age naturalmente perante todo um auditório que o ouve com atenção. No final, disponibiliza-se a falar sobre si mesmo, a sua empresa, a YDreams, e sobre o futuro tecnológico que se aproxima.
 
Cátia Rodrigues - Deu aulas nos Estados Unidos da América, na Universidade de Cornell, em 1988/89, e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em 1998/99.
Quais são as grandes diferenças entre o ensino nos Estados Unidos e o ensino em Portugal?
ANTÓNIO CÂMARA – Em geral, o ensino nas universidades portuguesas é um ensino de qualidade. A única diferença é que nos Estados Unidos da América, nomeadamente no MIT, há um estímulo enorme para o empreendorismo. Há uma forte pressão para as pessoas arriscarem, para se aventurarem, para criarem empresas. Só 20 por cento dos estudantes do MIT pretende ser empregado; em Portugal a estatística é quase inversa. Cá 80 por cento querem ser empregados, enquanto que na América 80 por cento querem ser empreendedores.
 
Depois de trabalhar no MIT, porque é que resolveu deixar os EUA e apostar em Portugal?
Porque eu adoro Portugal, porque tenho uma rede social de apoio. Lá, isso não acontece. Na sociedade americana existem muitas pessoas que vivem sozinhas e isoladas, em Portugal acontece o oposto. O nosso país tem muitas vantagens mas continua a desprezá-las. Para mim, a maior delas é a vantagem humana.
 
Como surgiu a YDreams?
A YDreams é o resultado de uma investigação de cinco anos em sistemas de informação geográfica, multimédia e realidade virtual, na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Em 1998, eu e nove colegas fomos para Silicon Valley, EUA, trabalhar na NASA e no MIT.
Em 1999, tornou-se claro que, para além dos resultados académicos, tínhamos desenvolvido trabalho com um possível impacto económico. Quando regressei a Portugal, juntei um grupo de antigos colegas e decidimos criar a Ideias Interactivas, em Junho de 2000. Dois anos depois, mudámos o nome para YDreams, para facilitar a internacionalização.
 
“Nesta área, a criatividade marca a diferença”
 
Em que é que a sua empresa se distingue das concorrentes no mercado das novas tecnologias?
O sucesso da YDreams deve-se a três factores: a dez anos de investigação em sistemas de informação geográfica e multimédia conduzida na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. O segundo factor foi a passagem bem sucedida dos resultados da investigação para o mercado nacional, na área das telecomunicações, permitindo depois a expansão internacional.
Por último, a cobertura que os projectos da YDreams tiveram em artigos publicados nos mais conceituados jornais, tais como o New York Times, Liberation e El País.
Acho também que a criatividade marca toda a diferença nesta área das novas tecnologias. O que nós fazemos na YDreams é estimular continuamente a geração de novas ideias para produtos através de brainstorms presenciais e virtuais. É através da nossa criatividade que marcamos a diferença.
 
A YDreams desenvolveu vários jogos que estão, actualmente, espalhados pelo mundo.
Qual é o jogo de que se orgulha mais?
O jogo de que me orgulho mais é o Undercover porque foi profundamente inovador. Foi o primeiro jogo baseado em localização com interface visual, multi-player e de estratégia a nível mundial. Foi tema de artigos no El Pais, Liberation, Wired News e muitas outras publicações. A HP e a Comissão Europeia, entre outras instituições, utilizam o Undercover como exemplo de uma nova forma de entretenimento.

 
“Procuramos tipos com capacidade para «disparar»”
 
A YDreams conta hoje com mais de uma centena de trabalhadores.
Quais são os requisitos para trabalhar na sua empresa?
O primeiro requisito é a paixão. É fundamental termos paixão por aquilo que fazemos. Outro requisito indispensável é a capacidade de concretizar. Quando falo deste assunto, costumo dar o exemplo de um dos filmes do Indiana Jones, em que há um tipo mau que faz dezenas de malabarismos para tentar acabar com o adversário. Este, por sua vez, saca da pistola e dispara um tiro, aniquilando o rival de uma só vez. O que nós procuramos na YDreams são esses tipos que têm a capacidade de «disparar», ou seja, de concretizar.
 
De momento, que projectos está a YDreams a desenvolver?
De momento, estamos a trabalhar no lançamento de novos jogos, dos quais não posso falar porque estão ainda «no segredo dos deuses». Além disso, estamos também a construir interactividade em materiais como o papel, o vidro, a madeira e a cortiça. Num futuro muito próximo, queremos transformar qualquer material em material interactivo.
 
Qual foi o maior desafio profissional que já enfrentou?
Passei por vários mas, a nível internacional, foi um concurso da BBC em que concorreram 90 empresas para fazer um jogo para a série Spooks, uma série sobre espiões. Depois de uma luta muito renhida, ganhámos! Foi, sem dúvida, um enorme desafio.
 
“A Internet é um repositório da imaginação humana”
 
Como serão os computadores do futuro?
Nos anos 80, muitas foram as tentativas para criar software de ideias aproveitando as nascentes tecnologias multimédia. Hoje, a Internet é o mais eficaz auxiliar de um criador. É, simultaneamente, um repositório da imaginação humana.
A Internet tem estado associada sobretudo aos ecrãs dos computadores pessoais.
No futuro próximo, esses serão os ecrãs minoritários. Os ecrãs dos telemóveis e da televisão interactiva e a rede ubíqua (que não utilizará necessariamente ecrãs) dominarão.
Num futuro muito próximo, os computadores não terão portas USB porque todos os conteúdos serão transmitidos através de redes wireless.
Pensa-se que, um dia, o computador terá uma ligação directa ao cérebro humano, através de um chip colocado na nossa cabeça.
 
Acha que se tal acontecer nós seremos dominados pelas máquinas?
Não. Penso que este tema apenas dará bons filmes! O computador terá um dia capacidade cognitiva mas nunca terá a nossa capacidade de criatividade e de emoção.
 
Um dos grandes problemas do nosso país é a infoexclusão, já que cerca de 67 por cento da população é infoexcluida. Como acha que se pode atenuar este problema?
A infoexclusão é realmente um grande mal da nossa sociedade. Mas pode ser atenuada se forem lançados interfaces mais simples, utilizando touch sccreens e um mínimo de clicks na linha do Multibanco.
 O MIT está também a tentar baixar os custos do hardware, através do lançamento de um laptop com um custo que ronda os 100 dólares.
 
A sua empresa já tomou alguma medida de forma a diminuir este flagelo?
A YDreams desenvolveu um interface para o Sapo Home, inspirado numa visão da série dos anos 80 Os Jetsons que permitirá baixar o custo do acesso à informação, bem como torná-lo mais simples.
 
publicado por Vanessa Rodrigues às 16:01
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