Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Prisioneiros da própria mente

 

A mente pode pregar partidas. Pode condicionar a vida pessoal, social, profissional e afectiva. Os ataques de pânico são exemplo disso. Mexem com a mente, transtornam a vida e provocam o medo constante de morrer.
 
 
“E
stava a estudar para um exame que ia ter no dia seguinte. Sentia-me nervosa mas decidi deitar-me para descansar. Foi quando tudo começou. Comecei a ter pensamentos horríveis e não me conseguia controlar. Comecei a sentir calafrios e um forte ardor nas costas, parecia que me estavam a queimar. O meu corpo começou a tremer e vomitei várias vezes ao longo da noite. Pensei: «Eu vou morrer.» E entrei totalmente em pânico.”
Esta é a história de Helena Reis. Com 31 anos, sofre de ansiedade e ataques de pânico há dez, uma doença do foro psicológico que pode incapacitar qualquer um de realizar actividades quotidianas como, por exemplo, ir a um hipermercado ou sair de casa sozinho.
Mas o que é o transtorno de pânico? Segundo Fernando Lima Magalhães, licenciado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), o pânico é "um período distinto de intenso temor ou desconforto, no qual quatro (ou mais) dos seguintes sintomas se desenvolvem abruptamente e alcançam um pico em dez minutos: palpitações, suores, tremores ou abalos, sensações de falta de ar ou sufocamento, sensação de asfixia, dor ou desconforto torácico, náusea ou desconforto abdominal, tontura ou vertigem, despersonalização, medo de perder o controle ou de enlouquecer, medo de morrer, paralisias, calafrios ou ondas de calor".
 
Vivência dum ataque de pânico provoca um estado geral de hipervigilância
 
A ansiedade pode atingir qualquer pessoa ao longo da vida, como reacção do corpo a uma situação de perigo. Por sua vez, os ataques de pânico ocorrem de forma súbita e, muitas vezes, sem razão específica. A vivência dum ataque de pânico provoca um estado geral de hipervigilância e apreensão quanto à possibilidade de ocorrer um novo ataque, o que leva o indivíduo a adoptar medidas preventivas. A pessoa desenvolve uma ansiedade em relação a estímulos externos que associa a uma maior probabilidade de recorrência do ataque ou à percepção de ausência de ajuda adequada.
Maria Nunes, estudante de 20 anos, viu a sua vida condicionada depois de viver pela primeira vez um ataque. “Estudo em Lisboa e moro na Margem Sul, logo todos os dias tenho de enfrentar o trânsito na A2 em direcção à Ponte 25 de Abril. Nas primeiras vezes, o trajecto correu normalmente. Um dia, sem que estivesse nervosa com alguma coisa, comecei a ter pensamentos horríveis quando me aproximava da ponte. Comecei a imaginar que um avião ia embater na ponte e que esta iria cair. Comecei a imaginar o meu carro a cair ao rio. Ia morrer. O meu coração começou a bater muito forte, pensei que ia ter um ataque cardíaco, sentia suores a escorrer pelo meu corpo e comecei a perder o controle. Ainda assim, consegui a muito custo seguir viagem. Quando cheguei a Lisboa, tudo passou e não percebi o que me tinha acontecido. No dia seguinte, o ataque surgiu novamente até porque, no caminho, já ia a pensar que poderia voltar a sentir-me mal. Os ataques começaram a repetir-se nas mais variadas situações, quando entrava num elevador, quando o professor fechava a porta da sala e tinha de abandonar a aula porque me sentia a ficar sem ar. A minha vida alterou-se e eu própria pensava que estava a enlouquecer. Os meus pais não me compreendiam. Mandaram-me para uma psicólogo que me detectou transtorno de pânico. Desde aí, tomo ansiolíticos todos os dias e sou seguida pela especialista duas vezes por semana. Estou melhor mas continuo a evitar tudo o que me possa provocar o pânico.” Maria deixou de sair com os amigos, de ir ao supermercado com a mãe, de ir sozinha à baixa Lisboeta. Tudo por medo de se sentir mal novamente.
 
Taxas de prevalência da doença rondam os 85%
 
 Para as pessoas que não têm este problema pode ser difícil compreender a doença. Mas para os 3,5 % da população atingida, este mal arruina as suas rotinas.
De acordo com o American Psychiatric Association, as taxas de prevalência, ao longo da vida, de perturbação de pânico rondam os 85 por cento. Esta é uma doença crónica associada a perturbações como a depressão, alcoolismo, abuso de substâncias, fobia social, perturbação da ansiedade generalizada, perturbação pós-stress traumático e todo um leque de perturbações da personalidade.
Quando o pânico é acompanhado de agorofobia (medo de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão), o problema é ainda pior e pode conduzir a tentativas de suicídio, disfunção sexual e conjugal, adição a tranquilizantes, úlceras, hipertensão, enxaquecas, desemprego, dificuldades económicas e recurso excessivo aos sistemas de  saúde.
Ana Morais, 22 anos, teve o primeiro ataque depois de ser mãe “O meu bebé tinha cerca de duas semanas quando entrei em pânico pela primeira vez. Estava a tomar banho quando comecei a sentir o coração bater muito forte, senti que o ar me faltava. Saí a correr da banheira e fui chamar a minha mãe. Disse-lhe que não me estava a sentir bem, que sentia o corpo todo dormente e que estava a desfalecer. Ela vestiu o bebé a correr mas não a tempo de me acompanhar. Saí de casa sozinha, tal era o pânico, e comecei a descer. Caí nas escadas e um vizinho socorreu-me. Desmaiei. Quando acordei, não conseguia mexer os músculos da cara nem falar. O INEM chegou e deram-me um calmante. Levaram-me para o hospital e o médico detectou-me o transtorno de pânico. Desde aí, a minha vida mudou radicalmente. Não consigo sair de casa sem alguém que me acompanhe; não posso estar em casa sozinha porque temo sentir-me mal e não ter ninguém que me ajude, e para tomar banho é um verdadeiro martírio, tudo porque o primeiro ataque ocorreu dentro da banheira e temo que me volte a acontecer.”
 
Muitos doentes acabam por se refugiar no álcool
 
Milhões de pessoas no mundo sofrem deste mal. Algumas procuram ajuda, outras acabam por se refugiar no álcool para esquecerem o sofrimento. É o caso de João Costa. “Sofro de pânico há sete anos. Os dois primeiros foram os piores porque não conseguia sair de casa. Descobri então que o álcool me acalmava e optei por tomar uns quantos copos de vinho em vez de tomar um calmante, porque não queria ficar dependente de medicamentos. Acabei por me tornar alcoólico, o que me dificultou mais a vida. Felizmente, a família e amigos sempre me apoiaram, o que me ajudou a superar as crises de ansiedade. Hoje, frequento uma psicóloga todas as semanas e há três meses passei a frequentar os Alcoólicos Anónimos. Agora vejo que o álcool só me fazia pior porque, depois de cinco ou seis copos, começava a delirar e entrava em pânico na mesma.”
O tratamento para esta doença do foro psicológico passa pela toma de ansiolíticos mas, segundo Fernando Lima Magalhães, “os medicamentos não parecem curar totalmente porque não eliminam o medo das sensações do corpo que indiciam o pânico nem ensinam às pessoas as estratégias para lidar com ele. Os medicamentos apenas diminuem os sintomas. Outro problema dos medicamentos é que, se forem tomados durante semanas ou meses, podem provocar dependência. Também  é frequente que os sintomas reapareçam depois de deixar de tomar a medicação. A médio e longo prazo, a terapia psicológica tem demonstrado maior eficácia porque ensina às pessoas formas diferentes de pensar e de se comportar em relação aos sintomas do pânico”.
Uma boa parte do tratamento tem a ver com a psicoeducação, ou seja, aprender sobre a ansiedade e o pânico: como se manifesta, como se relaciona com experiências de vida ameaçadoras e quais são os sintomas do medo, da ansiedade e do pânico. Outra parte importante consiste em desafiar os pensamentos assustadores e ensinar as estratégias para lidar com preocupações crónicas, bem como prevenir recaídas.
Se o doente procurar tratamento no início, a maioria dos sintomas desaparece em pouco tempo sem grandes efeitos negativos. Mas, se o transtorno de pânico não for tratado, pode comprometer bastante a vida do doente, a sua saúde, relacionamento social e afectivo, tornando-o prisioneiro da sua própria mente.
publicado por Vanessa Rodrigues às 22:56
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