Terça-feira, 10 de Março de 2009

"Homem grávido" - aberração ou direito?

Estou a escrever este post depois de ter visto na TVI uma reportagem sobre o denominado "homem grávido" e, depois de ouvir uns tantos comentários menos agradáveis a este respeito, decidi deixar aqui a minha opinião.

Na reportagem, o "homem grávido" ou melhor o transsexual Thomas Beatie contou a história da sua vida e, em especial, desta gravidez, relatando também as ameaças de morte, ora por carta ora por telefone, que recebia diariamente dos quatro cantos do mundo. Chamaram-lhe tudo desde "freak", "aberrração" e, inclusive, desejaram que ele e o seu "rebento demoníaco" morrecem aquando do parto.

Questiono o direito destas pessoas a intrometerem-se e ameaçarem a vida desta família. Questiono o porquê de tanto preconceito sexual no mundo. Será que duas pessoas normais, que se amam e que desejam constituir uma família, um lar, com amor e carinho, só porque são ambas do mesmo sexo à nascença, têm menos direito à procriação do que um casal composto por um homem e uma mulher?

Depois de anos de luta, em todo o mundo, pelo direito à igualdade, fosse entre homens e mulheres, ou entre brancos e negros, porque não compreendem as pessoas que um homossexual ou transsexual tem os mesmo direitos que um heterossexual? O que é que nós - heteros - temos em especial para nos sentirmos superiores e com mais direitos que uma pessoa que gosta de outras do mesmo sexo?

Acho que este assunto deveria ser profundamente debatido na sociedade portuguesa e, neste sentido, estou de pleno acordo com José Sócrates em relação à liberalização do casamento homossexual. Muitos dizem que não é a altura certa para discutir este assunto devido à crise económica e financeira que atravessa todo o mundo. Tudo bem, a crise é deveras importante. Mas, será que devemos continuar a adiar uma discussão tão importante para milhares de pessoas, agora em nome da crise económica, daqui a uns tempos em nome de uma outra crise e assim por diante? Acho que chegou o momento para tal discussão até porque quem começou a crise não foi a comunidade homossexual ou transsexual e eles, tal como a maioria dos portugueses, não têm de adiar ou prejudicar a sua vida devido a ganâncias e ambições desmedidas de senhores de fato e gravata que, pela caluda e de mansinho, conseguiram arruinar a vida financeira, social e educativa de centenas de países, prejudicando milhares de pessoas e deixando o mundo num caos como há muito não se via.

publicado por Vanessa Rodrigues às 16:12
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À conversa com Reginaldo Rodrigues de Almeida (SIC Notícias)

 

“O terrorismo é uma espécie de franchising, é o McDonald´s do mal”
 
 
Estuda a globalização de dentro para fora. Analisa o panorama das várias sociedades que convivem em simultâneo: Global, do Consumo, Civil, Digital, da Mobilidade, da Convergência, Tecnológica, do Lazer, da Informação e do Conhecimento. Fala da passagem da sociedade da informação para a sociedade do conhecimento. Diz que quem acompanhar a inovação, o bit e a informação sairá vencedor. Quem não o fizer, cairá no fosso da infoexclusão.
 
 
C
hega pontualmente à Fundação Portuguesa das Comunicações. São 18: 00 horas. Tem pela frente duas horas de trabalho, como moderador da conferência “Vícios Online”. Mas tem ainda tempo para falar do seu livro, das tecnologias de informação e de comunicação, e de dois dos problemas que abalam a sociedade actual: o terrorismo e a infoexclusão.
 
Cátia - Com o aparecimento das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) surgiram várias denominações para caracterizar a sociedade, nomeadamente Aldeia Global (McLuhan) ou Sociedade Digital (Negroponte). No seu livro, intitula-a Sociedade Bit. Porquê este título?
Reginaldo Rodrigues de Almeida - Sociedade Bit é uma sociedade intermédia que pretende demonstrar que informação não é sinónimo de conhecimento. Se, por um lado, todos estamos na sociedade da informação, nem todos estamos na sociedade do conhecimento. Todos partimos da premissa universal de que a informação existe mas temos de perceber que pode não nos conduzir ao conhecimento. Podemos estar num laboratório onde a informação é abundante mas isso não significa necessariamente que estejamos a fazer um trabalho que produza conhecimento. A informação só se transforma em conhecimento quando é devidamente recolhida e correctamente aplicada. A Sociedade Bit tenta demonstrar que, para termos eficácia, para obtermos conhecimento, temos de partir da informação e, através das TIC, chegar à sociedade do conhecimento.
 
 As TIC têm crescente implementação, quer a nível internacional, quer nacional, o que tem acentuado o fenómeno da infoexclusão. Quais são as grandes causas deste problema?
As TIC ainda não cumpriram o seu papel social. Será cumprido quando pudermos utilizar o computador sem nenhum conhecimento preexistente. Por exemplo, através do Windows temos facilidade em aceder ao Outlook mas, apesar disso, temos de ter algum conhecimento. Há franjas populacionais excluídas, analfabetas, que conseguem interagir com um televisor à distância de um clique mas não conseguem utilizar o computador nesses termos. Recordo uma campanha publicitária de uma operadora de telemóveis em que aparecia um pastor no meio do campo, atendia o telemóvel e dizia “Tô xim”. Este cenário define exactamente o paradigma do papel social das comunicações. Quando pudermos utilizar as comunicações e a tecnologia como o ar que respiramos, como uma espécie de segunda pele, temos o problema resolvido. Até lá, o gap, a infoexclusão, mantém-se.
 
“A informação é o sangue das democracias”
 
Existe uma clivagem entre os info-ricos (aqueles que detêm a informação e sabem aplicá-la) e os info-pobres (os que não a detêm). Quais os grandes problemas que este facto pode trazer ao mundo?
A infoexclusão é um factor altamente excludente na sociedade da informação em que vivemos. É necessário privilegiar o computador, não numa perspectiva de substituição das capacidades formalmente adquiridas mas num panorama de complementaridade. Temos de aprender a ler, a escrever e, essencialmente, a pensar. É fundamental criar condições para ajudar as pessoas e, ao mesmo tempo, potenciar o papel da tecnologia. Se tal não for feito, as gerações do futuro vão ser ainda mais analfabetas do que nós.
 
Existe o perigo de o mundo se dividir em sociedades “digitais” e sociedades “analógicas”?
É o que está a acontecer neste momento. O chamado Terceiro Mundo não é mais do que a sociedade que não detém a informação, muito menos o conhecimento. Se no tempo das fisiocracias, das economias do liberalismo, o ouro era o sangue das monarquias, neste momento a informação é o sangue das democracias. Quem a detém é aparentemente vencedor. Já não há pessoas muito inteligentes mas sim pessoas muito bem informadas.
 
Nicholas Negroponte no livro Ser Digital escreve: “O interface genérico com os computadores pessoais tem sido tratado como um problema de design físico. Mas a interface não se reduz apenas ao ver e sentir um computador.” O computador é, por si só, uma máquina indispensável à sociedade actual?
Não podemos viver sem ele. Mas, o computador só nos interessa se o utilizarmos correctamente para validar e agilizar competências que, de outra forma, demoraríamos muito mais tempo a conseguir. Neste momento, as máquinas ainda não pensam. Mas, a partir de 2015, o Massachussets Institute of Technology (MIT) prevê que a chamada terceira fase da informática, a chamada “informática omnipresente”, poderá fazer com que as máquinas pensem. Em 1997, o computador Deep Blue bateu o campeão mundial de xadrez. No entanto, ainda não têm capacidade cognitiva. Daqui a uns anos terão. Será a supremacia da máquina sobre o homem, o que poderá ser muito problemático.
 
“A máquina e a tecnologia são realidades abstractas”
 
Toda a sociedade portuguesa está a ser empurrada para um espectro tecnológico avançado, sem lhe ter sido ensinado como aproveitar as novas facilidades e comodidades. O que pode ser feito pelo Governo, no sentido de educar as pessoas para as TIC?
Através de programas como o Plano Tecnológico, um projecto acabado que o actual Governo tem posto em prática, pode demonstrar que as tecnologias da informação têm de ser utilizadas por todos de forma transversal. Tem de validar as competências formais do mundo analógico e, através da máquina, passá-las para o mundo digital. A máquina e a tecnologia são, no entanto, realidades abstractas. Tanto podem ser boas como más. São ambivalentes. Tal como os carros tanto servem para nos transportar como para nos atropelar e matar. Tal como uma faca tanto serve para cortar um bife como para esfaquear alguém. Tudo depende da finalidade que lhe damos. Se a tecnologia for bem conduzida é estruturalmente boa. Se for mal conduzida, como tem acontecido em alguns casos, é má. É um paradoxo que nunca se resolve na plenitude porque depende da vontade política dos homens. Fazem-se grandes manifestações para combater a fome em África. O Live Earth pôs em palco dezenas de músicos para alertar para o problema. Foi um esforço desnecessário. As duas pessoas mais ricas do Mundo têm uma fortuna superior ao PIB dos 15 países mais pobres. Perante esta realidade, concluo que o contrato social não está a ser bem cumprido.
 
Raul Junqueiro no livro A Idade do Conhecimento escreve: “A alfabetização dos dias de hoje vai muito para além da aprendizagem da leitura e da escrita implicando, obrigatoriamente, o suporte digital das mesmas, inclusive o respectivo tratamento e manuseamento.” As pessoas estão dispostas a fazer um esforço para adquirir estas competências?
Creio que sim. Tenho trabalhado com infoexcluídos da 3ºidade, que ficam completamente deslumbrados quando são confrontados com a poderosa realidade da informática e da Internet. Acredito que, se houver um marketing social adequado, em torno da política de educação para as TIC, a adesão de várias gerações de cidadãos será muito significativa.
 
“A Internet pode criar um verdadeiro processo educomunicativo”
 
Michael Dertouzous no livro O Que Será? afirma que “não existe uma verdadeira infra-estrutura de informação disponível”. Concorda?
Sim, se essa infra-estrutura existisse não encontraríamos em Portugal jovens de 20 anos analfabetos. Alguns nem sabem assinar o nome, por mais que nos doa e nos custe. Estamos no século XXI. Pertencemos ao clube dos 27 mais ricos e, apesar disso, a 150 quilómetros há gente que não sabe assinar o nome. Com realidades destas, só posso concluir que a infra-estrutura não está, de facto, montada.
 
Pessoas de diferentes classes sociais, etnias (que apenas frequentavam locais onde podiam encontrar pessoas com as mesmas características), actualmente podem aceder e comunicar numa mesma sala de chat, escondendo a sua identidade por detrás de um nickname. Pode a Internet acabar com o estigma social?
Pode ajudar fortemente por uma razão: a Internet pode criar um verdadeiro processo educomunicativo. A linguagem da Internet pode inovar a comunicação entre os povos. Se enviar um smiley a um chinês, mesmo que não conheça nada de mandarim nem ele de português, ele percebe que estou aparentemente satisfeito. Há aqui uma codigologia universal que pode resultar em prol dos mais excluídos se a Internet for devidamente apropriada. Contrariamente ao que se diz sobre a geração da “tribo do polegar”, aquela que usa fundamentalmente o sms, ela escreve muito mais do que nós ou os nossos pais. A ideia de que agora não se escreve, nem se utiliza bem a língua, está totalmente errada. Nunca se escreveu tanto como hoje. Isto é um benefício da Internet. Podem dizer “mas há expressões abreviadas que tornam a escrita completamente diferente”. Não faz mal. Podem escrever café com “kfé”, isso só recria a língua. Se, em termos de eficácia, eficiência e rapidez, um jovem quiser escrever café pela nova forma educomunicativa não há problema desde que não se esqueça da escrita tradicional. É uma vantagem. Os jovens dizem mais em menos tempo, o que é óptimo. O tempo é um bem precioso na nossa sociedade.
 
“A nossa riqueza assenta na riqueza do Médio Oriente”
 
O Reginaldo escreve: “O 11 de Setembro consegue reproduzir a face mais negra da Lua, bem à vista da Terra, efeito da globalização, aliada ao uso das tecnologias disponíveis e pela mão do terrorismo.” Considera o terrorismo uma consequência directa da globalização?
Sim, é uma consequência directa da globalização e da política externa norte americana. O Mundo está mais inseguro. O inferno está na terra. O acto perfeitamente fratricida que matou 4500 pessoas no World Trade Center, o chamado 9/11, é um acto hediondo e condenável a todos os preços. Tanto direito tem um norte-americano de chorar a morte de um ente querido como uma mãe iraniana, paquistanesa ou iraquiana, de chorar a morte do seu filho. No Ocidente, olhamos para a guerra de forma mórbida. Estamos confortavelmente instalados na nossa sala ou cozinha, a comer um grande bife com o ar condicionado ou o aquecimento central, e olhamos para aquilo como uma espécie de telenovela. Advém da globalização. Há um choque de civilizações entre o Ocidente e o Oriente porque toda a riqueza ocidental é construída sobre um denominador comum oriental: o petróleo. A nossa riqueza assenta na riqueza do Médio Oriente. Não é nossa, é deles. Este é o grande ressentimento. Na década de 60, no Irão, as miúdas andavam de mini-saia e os rapazes de mota como o Ryder na Harley Davidson. A partir da revolta do Xá, isto deixou de existir porque se entendeu ser uma cultura decadente que em nada contribuía para os valores de cidadania. A globalização é causa e consequência do terrorismo. O terrorismo é uma espécie de franchising, é o McDonald´s do mal. Em qualquer canto do mundo está um terrorista pronto a actuar. São pessoas aparentemente inofensivas, de aspecto vulnerável, que podem cometer males incontroláveis. Acredito que, num futuro próximo, vão surgir questões a este nível completamente incontroláveis. Há uma lógica inversa. No 11 de Setembro, a Al-Qaeda disse ao Ocidente: “Os nossos jovens têm tanta vontade de morrer quanto os vossos de viver.” Esta lógica não pode ser compreendida segundo os valores do Ocidente. Os Beatles escreveram Strawberry Field: “Let me take you now, because I am going to strawberry field.” Este “campo de morangos” é o campo idílico onde quem não tem nada, nada tem a perder. É aqui que os jovens terroristas se revêem já que, aparentemente, têm sete virgens no céu à sua espera. Quanto melhor fizerem na terra, mais serão compensados no céu. É uma lógica calvinista ao contrário, uma realidade que a globalização fomentou.
 
publicado por Vanessa Rodrigues às 16:08
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À conversa com Mário Augusto

 

 
 
“O que as pessoas vêem em casa é uma falsa intimidade com os famosos”
 
Das idas ao cinema em Espinho ao passeio da fama em Los Angeles, este apaixonado pela Sétima Arte percorreu um longo caminho até se tornar num dos portugueses mais famosos entre as estrelas de Hollywood. Hoje, Mário Augusto senta-se no sofá vermelho, não nos EUA mas em Portugal. Não para entrevistar estrelas como Paris Hilton ou Jodie Foster mas para dar a conhecer o seu próprio mundo.
 
Cátia Rodrigues - Quando e como surgiu a sua paixão pelo cinema?
Mário Augusto - Começou muito cedo. Sou de Espinho, perto do Porto. Quando tinha 11 anos, estreou um festival de cinema de animação, o Cinenima. E foi pela animação que comecei a descobrir o outro lado do cinema. Aprendi algumas técnicas e aquilo fascinou-me tanto que passei a fazer parte da organização do festival. Ainda adolescente, comecei a ter contacto com a Comunicação Social. Era eu quem fazia os comunicados de imprensa, relacionados com o festival.
Comecei a achar piada à rádio, à televisão e daí foi um passo. Todos os meus colegas do Cinenima estão, actualmente, ligados ao jornalismo mas sou o único ligado ao cinema.
 
Há 20 anos que entrevista famosos. Como surgiu a oportunidade de ir para Hollywood entrevistar algumas das pessoas mais mediáticas do mundo?   
A oportunidade surgiu quando estava a trabalhar na RTP. Encontrava-me a fazer uma rubrica sobre cinema quando tive a possibilidade de entrevistar alguns famosos. Na altura, quem mandava na estação era o José Eduardo Moniz. Ele decidiu colocar as minhas peças no meio do jornal. Eu continuei a entrevistar cada vez mais famosos mas nem me passava pela cabeça que pudesse fazer apenas disso a minha profissão. Portugal não tem um mercado muito grande, não representa quase nada no negócio dos filmes. Mas, com o passar dos anos, continuei a entrevistar. O auge do meu trabalho deu-se quando vim para a SIC. Na altura, o director Emídio Rangel quis apostar fortemente nesta área, o que me deu a oportunidade de fazer aquilo que gosto.
 
O que acha mais fascinante no seu trabalho?
Ao contrário do que muitos jovens pensam, não é aparecer na televisão. A televisão é um fósforo. É um mundo muito engraçado, os bastidores são fantásticos, mas a história de aparecer na televisão e ser reconhecido na rua é um “pau de dois bicos”. Temos de ver a carreira sempre como um fósforo. Quando acendemos, temos duas hipóteses: ou arde depressa e acaba-se depressa ou arde devagarinho até acabar o pau. O que tento fazer é manter a chama calminha até o pau arder por completo. Porque, para muitos, a chama torna-se muito alta, faz uma verdadeira labareda mas depois extingue-se de uma só vez. A fama acaba e o trabalho também. No entanto, adoro trabalhar na televisão. Faço o que gosto e pagam-me para isso.
 
 
“Não sou falso”
 
De todos os famosos que já entrevistou, qual foi o que mais o marcou?
É difícil criar uma relação de amizade com as estrelas porque, actualmente, as entrevistas são muito compactas, muito formatadas. Duram apenas cinco minutos, saio eu e entra outro jornalista. O que as pessoas vêem em casa é uma falsa intimidade com os famosos. Mas eu não sou falso. Sou genuinamente como apareço na televisão. Se me engano, azar. Se falo mal inglês, não faz mal porque eles também não falam português. Mas, apesar de tudo isto, existem alguns com quem tenho maior intimidade. Por vezes, cruzam-se comigo nos corredores e dizem: «Mário, how are you doing? How is Portugal?», o que é muito giro porque se recordam de mim, no meio de tantos jornalistas. Uma estrela que me marcou foi a Jodie Foster.
 
 Jodie Foster? Porquê?
É uma mulher extremamente simpática e inteligente. Além disso, tem uma filha da idade da minha e, portanto, quando nos encontramos perguntamos pelo “rebento” um do outro.
 
Quem gostaria de entrevistar?
Adorava entrevistar a Marylyn Monroe. Penso que seria uma mulher muito interessante mas, infelizmente, isso já não é possível. Dos vivos, gostava de entrevistar o Clint Eastwood. Acho que o seu trabalho é brilhante. Quem sabe, um dia, terei oportunidade de o fazer. É quem me falta na lista.
 
Pode contar-nos uma história engraçada?
É difícil arranjar histórias. O método para fazer as entrevistas está tão formatado que tenho de “espremer” os minutos aos segundos. Mas já me aconteceu começar uma entrevista, fazer a primeira pergunta, e ter vontade de desatar a correr dali para fora. Aconteceu-me quando tive de entrevistar a Paris Hilton e a miúda não dizia duas seguidas. Só dizia sim, não e ficou-se por ali. Saí de lá com uma raiva enorme e nunca mais quero voltar a entrevistá-la. Há ainda outra história engraçada. Não aconteceu directamente comigo mas com um jornalista inglês, daqueles que gostam de fazer perguntas sensacionalistas. Tínhamos viajado para Paris, para entrevistar o actor Russel Crowe. O inglês foi o primeiro a entrevistar e, ao que parece, fez comentários menos dignos sobre a esposa do actor. Russel não gostou muito da conversa e decidiu partir para a “pancadaria”. Conclusão: acabaram por ali as entrevistas e voltámos todos para casa sem o trabalho feito.
 
Prefere um passeio pela sua cidade natal, Espinho, ou o passeio da fama em Hollywood?
Espinho, sem dúvida. Gosto muito de viajar. Adoro ir a Hollywood mas Espinho funciona como um “carregador de baterias”. Foi lá que nasci, cresci e tenho a minha família. Não troco Espinho por parte nenhuma do mundo.
 
“O prazer maior de um filme é à posteriori
Qual o tipo de filmes que mais aprecia?
Gosto de todo o tipo de filmes, excepto de terror. Envolvo-me muito nas cenas. É como se estivesse a vivê-las. Assusto-me muito com os filmes de terror, não estou para ir ao cinema e pagar para me assustar.
 
 
Qual é, para si, o melhor filme até hoje realizado?
É muito difícil escolher um só filme. Estão sempre a surgir novos e bons filmes. O meu filme favorito hoje, provavelmente não será o mesmo daqui a sete anos. O cinema tem a capacidade de nos transmitir sensações que estão para lá da projecção. Cada um interpreta-o conforme as suas experiências pessoais, a sua sensibilidade. O melhor filme é aquele que vem agarrado a nós depois da projecção. O prazer maior de um filme é à posteriori. É descobrir o que o filme nos deu, o que nos transmitiu, o que nos ensinou. Mas, se tiver de escolher um filme que realmente me marcou, foi o Casablanca.
 
Casablanca? Porquê?
Pela história, pelas personagens e pela excelente realização.
 
Na sua opinião, quem é o melhor realizador de sempre?
Da nova geração, destaco o Paul Thomas Anderson porque tem uma grande visão de cinema. É um apaixonado pela Sétima Arte. Dos clássicos, o Martin Scorsese e o Coppola. Mas, para mim, o mestre da realização é o Steven Spielberg.
 
E o melhor filme português?
Infelizmente, o cinema português ainda não é tão bom como gostaria. Apesar disso, penso que tem marcado outros espaços. Já não é apenas um cinema de autor, como acontecia antigamente. Gosto, por exemplo, dos filmes de António Pedro Vasconcelos, porque percebe de cinema. Dessem-lhe meios e financiamentos para isso e penso que ele seria capaz de realizar um “filmaço”, ao nível dos americanos. Mas, se tiver de nomear um bom filme português, escolho Alice porque é tão bom aqui como na América. O cinema português tem um grande problema. O seu mercado é muito estreito. Não temos muita gente para ver o nosso cinema. Se um filme português conseguir ter 400 mil espectadores já é uma festa. Mas, mesmo assim, não chega para pagar um filme.
 
O cinema português, ao contrário de outros países europeus como França (34,8%) ou Espanha (15,8%), representa apenas 0.9% do mercado. O que poderá ser feito para contrariar as tendências cinematográficas dos portugueses de forma a “resistirem” ao imperialismo americano?
Em primeiro lugar, massificar a produção, criar mais condições para se produzir mais e ter a consciência de que não temos um mercado mundial. Temos de fazer filmes para nós e para os países que falam português. Muitos portugueses mal têm dinheiro para comer quanto mais para irem ao cinema. Os brasileiros também não estão muito virados para o cinema português porque têm a sua própria indústria cinematográfica.
 
“Sou um jornalista, não um escritor”
 
Já escreveu os livros Optimismo (2005), Nos Bastidores de Hollywood (2005) e Mais Bastidores de Hollywood (2006). Porque decidiu escrever livros?
Por desafio. Um dia, apareceu-me um editor que me tinha visto na televisão a contar histórias sobre famosos. Perguntou-me se queria escrever um livro.
Na altura, achei muito estranho. Primeiro, porque tenho consciência de que sou um jornalista e não um escritor. Ao contrário de muitos jornalistas que escrevem livros e já se acham grandes escritores, sei as minhas capacidades e tenho muito respeito por quem sabe e escreve grandes obras literárias. Essencialmente, nos meus livros conto histórias que me aconteceram enquanto entrevistava famosos. Escrevi o primeiro livro e achei aquilo muito engraçado. Passados três meses, como tinha algumas histórias que tinham ficado penduradas, resolvi escrever o segundo. Comecei, tentei fazer uma coisa um bocadinho diferente e acho que consegui.
 
Os lucros reverteram para a Fundação do Gil e para o movimento “Sorriso da Rita” (em homenagem à sua filha), para ajudar crianças com paralisia cerebral. Conseguiu cumprir o seu objectivo?
Sim, sem dúvida. A Fundação do Gil funcionou apenas como ajuda para o meu objectivo. Precisava de uma marca para dar credibilidade ao movimento “Sorriso da Rita”. A Margarida Pinto Correia foi fantástica. O dinheiro nem chegou a passar pela fundação, foi directo para a Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC). No início, estabeleci as regras em relação às verbas e disse que não ia receber dinheiro algum porque iria reverter, inteiramente, para a associação. Tenho uma filha com paralisia cerebral e sei muito bem os custos que esta doença tem e o quanto é complicado lidar com ela. O meu grande objectivo era ajudar essas pessoas e, também, chamar a atenção para esta doença. O facto de eu ser uma figura conhecida da televisão, e de assumir publicamente que tenho esse problema em casa, faz com que as pessoas encarem melhor esta doença. Que não a julguem como um “bicho de sete cabeças”. O primeiro livro reverteu 15 mil euros para a APPC. O segundo, 38 mil euros. Com os dois livros, penso que consegui ajudar entre 40 a 50 crianças com paralisia cerebral.
 
“Quem quer mesmo consegue”
 
O que achou da cerimónia dos Óscares 2008?
Este ano, um verdadeiro fracasso. Já não tinham audiências tão baixas desde os anos 80. Aquele programa é visto, normalmente, por mil milhões de espectadores. Este ano, teve metade. Não teve o impacto e o glamour que lhe são característicos.
 
Concorda com o júri em relação à escolha dos grandes vencedores?
Não, nem pensar. Não tenho nada contra os irmãos Cohen mas o meu favorito, que foi derrotado, era é o Paul Thomas Anderson. Acho que o filme Haverá Sangue é incrível e muito mais interessante, em termos de argumento, do que Este País Não É Para Velhos. Esta derrota não é inédita. Há uns anos, quando o Paul perdeu com o Magnólia para o Beleza Americana, também foi muito injusto.
 
Cada vez há mais jovens que aspiram a uma carreira no jornalismo. O que acha do ensino do jornalismo em Portugal?
Depende muito de escola para escola. Conheço algumas, nomeadamente em Braga, onde faço muitos workshops, onde o ensino é muito bom. Mas falta-lhes uma componente mais prática. É muito bonito dar teoria mas também é importante aplicar esses conhecimentos na prática. Não tenho curso nenhum porque, quando comecei, ainda não havia escolas de Jornalismo. Havia muita oferta de trabalho e algumas pessoas dispostas a trabalhar nessa profissão. Actualmente, a oferta de trabalho é muito pouca e, desde há uns anos, deu-se um boom de licenciados em Jornalismo. Tantos, que já não existe lugar para todos, daí que o desemprego nesta área seja cada vez mais comum.
 
Muitos jovens portugueses admiram a sua profissão. Que conselho dá aos que ambicionam, um dia, chegar onde chegou?
Nunca deixar de acreditar nos sonhos. Quem quer mesmo consegue. Há um truque importante para se ser bem sucedido: muito trabalho, determinação e acreditar nos sonhos. Se não conseguirmos hoje é porque não tinha de acontecer agora. Mas, amanhã, voltamos a bater à porta, tentamos e vamos conseguir. O importante é nunca cruzar os braços e desistir daquilo em que se acredita.
publicado por Vanessa Rodrigues às 16:05
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Entrevista a António Câmara (YDREAMS) - o empresário que sonhava ser ténista

 

“ Um dia, o computador terá uma       
 
 
ligação directa ao cérebro humano”
 
 
V
estido de forma casual, António Câmara aparece na Fundação Portuguesa das Comunicações para participar na conferência “Os Computadores do Futuro”. Este homem, de origens modestas, age naturalmente perante todo um auditório que o ouve com atenção. No final, disponibiliza-se a falar sobre si mesmo, a sua empresa, a YDreams, e sobre o futuro tecnológico que se aproxima.
 
Cátia Rodrigues - Deu aulas nos Estados Unidos da América, na Universidade de Cornell, em 1988/89, e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em 1998/99.
Quais são as grandes diferenças entre o ensino nos Estados Unidos e o ensino em Portugal?
ANTÓNIO CÂMARA – Em geral, o ensino nas universidades portuguesas é um ensino de qualidade. A única diferença é que nos Estados Unidos da América, nomeadamente no MIT, há um estímulo enorme para o empreendorismo. Há uma forte pressão para as pessoas arriscarem, para se aventurarem, para criarem empresas. Só 20 por cento dos estudantes do MIT pretende ser empregado; em Portugal a estatística é quase inversa. Cá 80 por cento querem ser empregados, enquanto que na América 80 por cento querem ser empreendedores.
 
Depois de trabalhar no MIT, porque é que resolveu deixar os EUA e apostar em Portugal?
Porque eu adoro Portugal, porque tenho uma rede social de apoio. Lá, isso não acontece. Na sociedade americana existem muitas pessoas que vivem sozinhas e isoladas, em Portugal acontece o oposto. O nosso país tem muitas vantagens mas continua a desprezá-las. Para mim, a maior delas é a vantagem humana.
 
Como surgiu a YDreams?
A YDreams é o resultado de uma investigação de cinco anos em sistemas de informação geográfica, multimédia e realidade virtual, na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Em 1998, eu e nove colegas fomos para Silicon Valley, EUA, trabalhar na NASA e no MIT.
Em 1999, tornou-se claro que, para além dos resultados académicos, tínhamos desenvolvido trabalho com um possível impacto económico. Quando regressei a Portugal, juntei um grupo de antigos colegas e decidimos criar a Ideias Interactivas, em Junho de 2000. Dois anos depois, mudámos o nome para YDreams, para facilitar a internacionalização.
 
“Nesta área, a criatividade marca a diferença”
 
Em que é que a sua empresa se distingue das concorrentes no mercado das novas tecnologias?
O sucesso da YDreams deve-se a três factores: a dez anos de investigação em sistemas de informação geográfica e multimédia conduzida na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. O segundo factor foi a passagem bem sucedida dos resultados da investigação para o mercado nacional, na área das telecomunicações, permitindo depois a expansão internacional.
Por último, a cobertura que os projectos da YDreams tiveram em artigos publicados nos mais conceituados jornais, tais como o New York Times, Liberation e El País.
Acho também que a criatividade marca toda a diferença nesta área das novas tecnologias. O que nós fazemos na YDreams é estimular continuamente a geração de novas ideias para produtos através de brainstorms presenciais e virtuais. É através da nossa criatividade que marcamos a diferença.
 
A YDreams desenvolveu vários jogos que estão, actualmente, espalhados pelo mundo.
Qual é o jogo de que se orgulha mais?
O jogo de que me orgulho mais é o Undercover porque foi profundamente inovador. Foi o primeiro jogo baseado em localização com interface visual, multi-player e de estratégia a nível mundial. Foi tema de artigos no El Pais, Liberation, Wired News e muitas outras publicações. A HP e a Comissão Europeia, entre outras instituições, utilizam o Undercover como exemplo de uma nova forma de entretenimento.

 
“Procuramos tipos com capacidade para «disparar»”
 
A YDreams conta hoje com mais de uma centena de trabalhadores.
Quais são os requisitos para trabalhar na sua empresa?
O primeiro requisito é a paixão. É fundamental termos paixão por aquilo que fazemos. Outro requisito indispensável é a capacidade de concretizar. Quando falo deste assunto, costumo dar o exemplo de um dos filmes do Indiana Jones, em que há um tipo mau que faz dezenas de malabarismos para tentar acabar com o adversário. Este, por sua vez, saca da pistola e dispara um tiro, aniquilando o rival de uma só vez. O que nós procuramos na YDreams são esses tipos que têm a capacidade de «disparar», ou seja, de concretizar.
 
De momento, que projectos está a YDreams a desenvolver?
De momento, estamos a trabalhar no lançamento de novos jogos, dos quais não posso falar porque estão ainda «no segredo dos deuses». Além disso, estamos também a construir interactividade em materiais como o papel, o vidro, a madeira e a cortiça. Num futuro muito próximo, queremos transformar qualquer material em material interactivo.
 
Qual foi o maior desafio profissional que já enfrentou?
Passei por vários mas, a nível internacional, foi um concurso da BBC em que concorreram 90 empresas para fazer um jogo para a série Spooks, uma série sobre espiões. Depois de uma luta muito renhida, ganhámos! Foi, sem dúvida, um enorme desafio.
 
“A Internet é um repositório da imaginação humana”
 
Como serão os computadores do futuro?
Nos anos 80, muitas foram as tentativas para criar software de ideias aproveitando as nascentes tecnologias multimédia. Hoje, a Internet é o mais eficaz auxiliar de um criador. É, simultaneamente, um repositório da imaginação humana.
A Internet tem estado associada sobretudo aos ecrãs dos computadores pessoais.
No futuro próximo, esses serão os ecrãs minoritários. Os ecrãs dos telemóveis e da televisão interactiva e a rede ubíqua (que não utilizará necessariamente ecrãs) dominarão.
Num futuro muito próximo, os computadores não terão portas USB porque todos os conteúdos serão transmitidos através de redes wireless.
Pensa-se que, um dia, o computador terá uma ligação directa ao cérebro humano, através de um chip colocado na nossa cabeça.
 
Acha que se tal acontecer nós seremos dominados pelas máquinas?
Não. Penso que este tema apenas dará bons filmes! O computador terá um dia capacidade cognitiva mas nunca terá a nossa capacidade de criatividade e de emoção.
 
Um dos grandes problemas do nosso país é a infoexclusão, já que cerca de 67 por cento da população é infoexcluida. Como acha que se pode atenuar este problema?
A infoexclusão é realmente um grande mal da nossa sociedade. Mas pode ser atenuada se forem lançados interfaces mais simples, utilizando touch sccreens e um mínimo de clicks na linha do Multibanco.
 O MIT está também a tentar baixar os custos do hardware, através do lançamento de um laptop com um custo que ronda os 100 dólares.
 
A sua empresa já tomou alguma medida de forma a diminuir este flagelo?
A YDreams desenvolveu um interface para o Sapo Home, inspirado numa visão da série dos anos 80 Os Jetsons que permitirá baixar o custo do acesso à informação, bem como torná-lo mais simples.
 
publicado por Vanessa Rodrigues às 16:01
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Entrevista ao rapper Valete

 

“Não fui «programado» para a fama”
 
 
D
e andar gingão, Valete aproxima-se da Universidade Autónoma de Lisboa. Carapuço na cabeça e calças largas a cair pela cintura, apresenta-se para a entrevista. Objectivo: falar sobre a sua carreira, desde o primeiro álbum até aos dias de hoje, apoiado por uma editora e “pelas ruas”. Filho de São-tomenses emigrados em Portugal, Valete, tal qual Martin Luther King, disse um dia:“Eu tenho um sonho.” Persistente nos objectivos, lutou contra tudo e todos. E passou de Valete a Ás de trunfo.
 
Há alguns anos, o hip hop deixou de ser apenas apreciado pelas massas suburbanas e chegou à classe média. Acha que a sua mensagem deixou de ser periférica e suburbana?
Sim e considero isso muito positivo. No início, representava uma comunidade. Era a voz dos oprimidos. Acabei por descobrir que, ao fazer música, podia passar a minha mensagem para muito mais gente. Através do rap consegui representar a minha comunidade e fazê-la chegar às classes médias. É um estilo de música que ajuda as pessoas a compreender melhor os problemas. Permite levar a verdade às pessoas. A Comunicação Social ofusca e tenta deturpar a realidade das comunidades suburbanas e de emigrantes. O rap e o hip hop fazem o contrário. Mostram o sentimento dessas pessoas, o seu estilo de vida, pensamento e sonhos.
 
Iniciou carreira em 1997, ao lado de Adamastor. Juntos formaram o Canal 115. Como foi essa experiência?
Foi uma experiência muito positiva. O Adamastor é o meu melhor amigo. Tínhamos uma relação quase familiar. Se um de nós tinha um problema, recorria ao outro e juntos resolvíamos a questão. É claro que também discutíamos mas essas desavenças fazem parte dos grupos.                                                                             
 
Depois de um intervalo na música dedicou-se aos estudos, para tirar o curso de Ciências da Comunicação. Porquê esta área?
Sempre encarei o rap como um exercício jornalístico. Sentia-me uma espécie de repórter dos subúrbios, das comunidades africanas e dos emigrantes. A ideia romântica que tenho do jornalismo, e que muita gente tem quando entra nesse curso, é que um jornalista representa a população. Diz verdades. Dá a conhecer o que, para a maioria das pessoas, é desconhecido. Entrei no curso porque queria informar e divulgar aquilo que era de interesse público. Mas, a meio do curso, deparei-me com várias desilusões. Percebi como é que funciona o sistema de Comunicação Social. Existem muitas corporações económicas por trás dos Media que condicionam a informação. Só passa para o público o que as corporações acham que deve passar. Entrei no curso apaixonado e saí decepcionado.
 
“A música está massificada, plastificada e uniformizada”
 
Na faixa Pela Música critica as rádios, os canais televisivos e as editoras por imporem um gosto musical formatado. Se pudesse fazer alterações nesses meios, o que mudaria?
A Comunicação Social ligada à divulgação musical deve respeitar a diversidade. Se numa comunidade musical existem movimentos com força como o hip hop, heavy metal, rap, techno, reggae, jazz, fado, é importante que a Comunicação Social reflicta isso. Na rádio passam sempre as mesmas músicas, refrães e artistas. Há uma formatação musical. As pessoas que “consomem” determinada rádio, principalmente os mais jovens, pensam que só aquela música existe. Tudo o resto é alternativo e tem de ser segregado. A música, por mais alternativa que seja, deve ser divulgada. A Comunicação Social deve ter esse papel. Os jovens estão muito ligados a essa formatação fácil, como acontece na MTV. Querem e estão habituados a músicas fáceis. Foram musicalmente educados dessa forma. As músicas têm de ser simples, fáceis e minimalistas. Tudo o que for complexo é rejeitado. Nos EUA, as crianças têm grandes músicos a ensiná-las nas escolas. Em Portugal, isso não acontece. Após o 25 de Abril, surgiram muitos grupos que foram bem-sucedidos. A partir do ano 2000 são poucos os artistas que conseguem subsistir nesta indústria. A música está massificada, plastificada e uniformizada.
 
Em 2002, regressou ao meio musical, a solo, com o álbum Educação Visual. Porque decidiu trabalhar sozinho?
É muito difícil trabalhar em grupo. Dava-me bem com o Adamastor mas era muito difícil gerir o trabalho. Tínhamos ideias diferentes. Somos muito amigos mas, a nível de personalidade, muito diferentes. Queria que o trabalho tivesse uma cara, mensagem e sonoridade, e ele não concordava. Então parámos, pensámos, conversámos e decidimos que a melhor solução era fazermos as nossas carreiras a solo.
 
Como caracteriza este trabalho?
É muito especial. Comecei do nada. Não tinha dinheiro, estúdio, editora, rigorosamente nada. Não sabia o que fazer e como fazer. Pedi dinheiro a amigos, lutei e nunca desisti porque sabia que tinha de o fazer. É algo que muitos músicos têm de perceber. Podemos não ter editoras, estruturas, rádios que nos apõem mas, se gostamos de fazer música, temos de seguir o nosso sonho. A música vai sempre existir, independentemente da indústria. Tendo isso em mente, fui, tentei, lutei e consegui.
 
“É importante conhecer a diversidade no rap
 
Como surgiu a ideia de fazer Liricistas, uma música repartida em dois?
Foi engraçado porque, inicialmente, não era essa a ideia. Convidar o Fiuzze e o Haze, dois mc´s do Porto; o Chalage e o Adamastor, de Lisboa. O objectivo era mostrar às pessoas as diferenças entre o rap do Norte e do Sul. Separei a faixa em dois para definir as duas escolas. Escolhi estes artistas por serem alguns dos rappers mais “batidos” nestas áreas. São duas formas diferentes de fazer rap. Achei interessante dar a conhecer as diferenças entre elas. É importante conhecer a diversidade no rap. Existem mc´s que escrevem mais letras sobre batalhas, outros sobre política, amor … É bonito sentir essas diferenças.
 
Ainda no primeiro álbum, lançou a música Pseudo mc´s. A quem se dirigia?
Aos rappers que não percebem o quanto é difícil fazer esta música. Não entendem que esta profissão exige muita disciplina e empenho. Passam uma imagem às pessoas de que fazer rap é fácil e banal. Não é. O rap em Portugal (e em todo o mundo) sofre com isso. Eles pensam que é “baza aqui escrever umas letras” e já está. Não é assim. Para ser agradável e ter impacto temos de nos dedicar muito. Aprender a escrever, a ter flow, compor música, fazer refrães, perceber os ritmos, estudar o bit, os tempos…É preciso uma educação musical muito extensa. É a falta de preparação desta massa de mc´s que estava a aparecer na altura, denegrindo a imagem dos verdadeiros rappers, que eu critiquei. Eram os pseudo mc´s.
 
Acha que o seu trabalho exerce algum tipo de influência na nova geração de mc´s?
Sim. Sinto isso. Muitos manifestaram que Educação Visual foi um álbum muito importante para eles. O álbum é considerado uma referência no rap português. Outros, que nem gostavam de rap, começaram a gostar a partir daquele trabalho. Não podia ter melhores elogios. Senti que criei uma coisa especial, sobretudo para os mais novos. Os músicos têm de ter noção que a faixa etária entre os 13 e os 18 anos é muito susceptível de ser influenciada. Os músicos podem influenciar esses jovens, influenciar para tornarem o mundo melhor. Podem criar um novo movimento. Vi e senti isso com o primeiro álbum.
 
“Sou socialmente incorrecto”
 
Em 2005, lançou o álbum Serviço Público. Exprime ideias revolucionárias sobretudo na faixa Anti-herói. Considera-se um revolucionário?
Sim, a música define-me. Não sou um revolucionário capaz de agarrar numa pistola e, contra tudo e todos, fazer um golpe de Estado (risos). Não. Revejo-me na música porque sou um inconformado. Quero mudar o status quo. Anti-herói é quem, em pequenas coisas, tenta mudar o sistema. É quem luta por um mundo melhor.

Na música Roleta Russa alerta para o uso do preservativo, de forma a prevenir doenças sexualmente transmissíveis. Aborda o tema como se estivesse a contar um conto. Acha que essa abordagem pode “ofuscar” a mensagem, já que algumas pessoas podem tomá-la como um conto erótico e não como um alerta para um problema sério?
Sou muito impúdico. Sou socialmente incorrecto. Gosto de trazer a rua para a música com palavrões e informalidades. Há pessoas que se encantaram com todo o erotismo e pornografia da música. Mas, para mim, é sempre uma vitória se uma em cada cem pessoas captar a verdadeira mensagem. Se uma delas travar maus comportamentos depois de ouvir aquele som. Além disso, acho que a forma como alertei para o problema foi a melhor. Tem muito mais eficácia do que 50 cartazes a dizer “Usa o preservativo”. As campanhas de sensibilização são moralistas, muito corny, e os miúdos não gostam de ouvir. Não lhes fica no ouvido. Acho que a minha mensagem é facilmente captada.
 
Gosta de chocar?
Tenho formação em Comunicação e especialização em Marketing. Não gosto de chocar gratuitamente. Mas acho que tudo o que digo tem de ter impacto, eficácia. Tento transmitir algo que as pessoas sintam. As pessoas têm de estar atentas ao que estão a ouvir. Preocupo-me em rimar coisas explosivas. Em chocar para captar a atenção.
 
O seu blog, no My Space, conta com mais de 250 mil visitas, sendo o segundo mais visitado em Portugal. Como se sente em relação a isso?
Percebi que a Internet é um espaço democrático. As pessoas visitam os sites, os blogs, porque querem visitar e não porque lhes são impostos. Não existe publicidade que imponha tal coisa, como acontece na rádio e na televisão. Não tenho representação nos meios de comunicação mas tenho a representação das ruas. As pessoas gostam do que faço. Os miúdos percebem e seguem o movimento. Muitas rádios não querem “passar” a minha música. A MTV recusou-se a transmitir o videoclip da música Anti-herói. Mas acabou por “passar” porque os miúdos votaram tanto nela, através de hitlists, que a MTV teve de “passar”. Sinto que as ruas estão comigo mas que as corporações, os meios de divulgação musical, estão contra mim.
 
“Não quero ser estigmatizado”
                                                                                                                           
Acha que este impacto merece alguma prudência ao abordar temas como a religião ou a política?
Não me quero condicionar por nada. Estou a criar um novo álbum cuja mensagem é “não te deixes influenciar por nada”. É uma coisa quase budista. É estar num estado Nirvana. É um estado emocional relaxante em que não se sente pressão. Só assim, o ser humano é livre. Quando uma pessoa começa a sentir pressão do pai, da mãe ou de outra pessoa qualquer, limita a sua liberdade. Fica condicionada. Começa a ser o que os outros querem que seja. Sei que quero um mundo diferente. Vivo nos subúrbios. Quero fazer a representação da minha comunidade. Mas não quero ser estigmatizado. Não quero estar “preso”. Vou continuar a dizer o que sinto, mesmo que as pessoas não aceitem. Quero ser cada vez mais livre.
 
O que é que os fãs podem esperar do novo álbum?
Até hoje, tive uma trajectória quase independente. Uma promoção quase amadora, sem uma estrutura de apoio. No novo álbum, vou começar a promover as músicas. Vou fazer videoclips, letras e bits melhores. Estou a evoluir como músico. Quero actuar ao vivo. Já não o faço há cinco anos. Quero correr o país e levar a música às pessoas. Sinto que faço mais do que música. Criei um movimento ideológico e quero mostrar isso ao mundo.
 
No início da sua carreira, dizia nas rimas “Não curto exploração de imagem, sou só pensamento, nunca hás-de ver o Valete na TV, não tenho corpo, não tenho matéria”. Conseguiu manter essa postura?
Não. Acho que a única coisa constante no ser humano é a mudança. Muita coisa que disse em 2002 não defendo em 2008. O que disse na altura foi genuíno. Sentia aquelas coisas. Mas cresci. Ganhei experiência e “absorvi” muita coisa. É natural que as ideias se tenham alterado. Na altura, queria fazer um ou dois álbuns e desaparecer. Não era matéria, apenas pensamento. Depois, percebi que muitas pessoas se identificaram comigo, com a minha atitude e personalidade. Se continuei a minha carreira, devo-a às pessoas.
 
“Vamos criar a nação lusófona de hip hop
 
De que forma é que a exposição mediática tem afectado a sua vida pessoal?
Não fui “programado” para a fama. Quando as pessoas me abordam na rua fico sem saber o que dizer. Incomoda-me. Mas é um processo irreversível. Vou ter de aprender a lidar com isso, apesar de não ter muito a ver comigo.
 
De todas as músicas, qual é a sua preferida?
Várias. Revelação e Anti-herói são algumas. Mas, preferida mesmo, é a faixa Roleta Russa. Só comecei a gostar depois de sentir a aceitação dos fãs. Musicalmente não é muito atraente. Mas consegui criar quase um formato de áudio-novela, um formato em que as pessoas entram na história. Criei uma lírica visual. Isso é muito bonito e também difícil de concretizar. Mas consegui. Daí que a música seja tão especial para mim.
 
Projectos para o futuro?
A minha editora, Horizontal, sugeriu um projecto interessante. Consiste em juntar o rap de Portugal ao de todos os PALOP´s. O nosso rap será ouvido nos vários países de língua portuguesa e vice-versa. Vamos começar um intercâmbio para editar alguns mc´s moçambicanos, angolanos… Dando-lhes oportunidade de fazer uma carreira em Portugal. Vamos encurtar distâncias e criar uma nova nação. A nação lusófona de hip hop.
música: Roleta Russa (Valete)
publicado por Vanessa Rodrigues às 15:58
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