Terça-feira, 10 de Março de 2009

À conversa com Reginaldo Rodrigues de Almeida (SIC Notícias)

 

“O terrorismo é uma espécie de franchising, é o McDonald´s do mal”
 
 
Estuda a globalização de dentro para fora. Analisa o panorama das várias sociedades que convivem em simultâneo: Global, do Consumo, Civil, Digital, da Mobilidade, da Convergência, Tecnológica, do Lazer, da Informação e do Conhecimento. Fala da passagem da sociedade da informação para a sociedade do conhecimento. Diz que quem acompanhar a inovação, o bit e a informação sairá vencedor. Quem não o fizer, cairá no fosso da infoexclusão.
 
 
C
hega pontualmente à Fundação Portuguesa das Comunicações. São 18: 00 horas. Tem pela frente duas horas de trabalho, como moderador da conferência “Vícios Online”. Mas tem ainda tempo para falar do seu livro, das tecnologias de informação e de comunicação, e de dois dos problemas que abalam a sociedade actual: o terrorismo e a infoexclusão.
 
Cátia - Com o aparecimento das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) surgiram várias denominações para caracterizar a sociedade, nomeadamente Aldeia Global (McLuhan) ou Sociedade Digital (Negroponte). No seu livro, intitula-a Sociedade Bit. Porquê este título?
Reginaldo Rodrigues de Almeida - Sociedade Bit é uma sociedade intermédia que pretende demonstrar que informação não é sinónimo de conhecimento. Se, por um lado, todos estamos na sociedade da informação, nem todos estamos na sociedade do conhecimento. Todos partimos da premissa universal de que a informação existe mas temos de perceber que pode não nos conduzir ao conhecimento. Podemos estar num laboratório onde a informação é abundante mas isso não significa necessariamente que estejamos a fazer um trabalho que produza conhecimento. A informação só se transforma em conhecimento quando é devidamente recolhida e correctamente aplicada. A Sociedade Bit tenta demonstrar que, para termos eficácia, para obtermos conhecimento, temos de partir da informação e, através das TIC, chegar à sociedade do conhecimento.
 
 As TIC têm crescente implementação, quer a nível internacional, quer nacional, o que tem acentuado o fenómeno da infoexclusão. Quais são as grandes causas deste problema?
As TIC ainda não cumpriram o seu papel social. Será cumprido quando pudermos utilizar o computador sem nenhum conhecimento preexistente. Por exemplo, através do Windows temos facilidade em aceder ao Outlook mas, apesar disso, temos de ter algum conhecimento. Há franjas populacionais excluídas, analfabetas, que conseguem interagir com um televisor à distância de um clique mas não conseguem utilizar o computador nesses termos. Recordo uma campanha publicitária de uma operadora de telemóveis em que aparecia um pastor no meio do campo, atendia o telemóvel e dizia “Tô xim”. Este cenário define exactamente o paradigma do papel social das comunicações. Quando pudermos utilizar as comunicações e a tecnologia como o ar que respiramos, como uma espécie de segunda pele, temos o problema resolvido. Até lá, o gap, a infoexclusão, mantém-se.
 
“A informação é o sangue das democracias”
 
Existe uma clivagem entre os info-ricos (aqueles que detêm a informação e sabem aplicá-la) e os info-pobres (os que não a detêm). Quais os grandes problemas que este facto pode trazer ao mundo?
A infoexclusão é um factor altamente excludente na sociedade da informação em que vivemos. É necessário privilegiar o computador, não numa perspectiva de substituição das capacidades formalmente adquiridas mas num panorama de complementaridade. Temos de aprender a ler, a escrever e, essencialmente, a pensar. É fundamental criar condições para ajudar as pessoas e, ao mesmo tempo, potenciar o papel da tecnologia. Se tal não for feito, as gerações do futuro vão ser ainda mais analfabetas do que nós.
 
Existe o perigo de o mundo se dividir em sociedades “digitais” e sociedades “analógicas”?
É o que está a acontecer neste momento. O chamado Terceiro Mundo não é mais do que a sociedade que não detém a informação, muito menos o conhecimento. Se no tempo das fisiocracias, das economias do liberalismo, o ouro era o sangue das monarquias, neste momento a informação é o sangue das democracias. Quem a detém é aparentemente vencedor. Já não há pessoas muito inteligentes mas sim pessoas muito bem informadas.
 
Nicholas Negroponte no livro Ser Digital escreve: “O interface genérico com os computadores pessoais tem sido tratado como um problema de design físico. Mas a interface não se reduz apenas ao ver e sentir um computador.” O computador é, por si só, uma máquina indispensável à sociedade actual?
Não podemos viver sem ele. Mas, o computador só nos interessa se o utilizarmos correctamente para validar e agilizar competências que, de outra forma, demoraríamos muito mais tempo a conseguir. Neste momento, as máquinas ainda não pensam. Mas, a partir de 2015, o Massachussets Institute of Technology (MIT) prevê que a chamada terceira fase da informática, a chamada “informática omnipresente”, poderá fazer com que as máquinas pensem. Em 1997, o computador Deep Blue bateu o campeão mundial de xadrez. No entanto, ainda não têm capacidade cognitiva. Daqui a uns anos terão. Será a supremacia da máquina sobre o homem, o que poderá ser muito problemático.
 
“A máquina e a tecnologia são realidades abstractas”
 
Toda a sociedade portuguesa está a ser empurrada para um espectro tecnológico avançado, sem lhe ter sido ensinado como aproveitar as novas facilidades e comodidades. O que pode ser feito pelo Governo, no sentido de educar as pessoas para as TIC?
Através de programas como o Plano Tecnológico, um projecto acabado que o actual Governo tem posto em prática, pode demonstrar que as tecnologias da informação têm de ser utilizadas por todos de forma transversal. Tem de validar as competências formais do mundo analógico e, através da máquina, passá-las para o mundo digital. A máquina e a tecnologia são, no entanto, realidades abstractas. Tanto podem ser boas como más. São ambivalentes. Tal como os carros tanto servem para nos transportar como para nos atropelar e matar. Tal como uma faca tanto serve para cortar um bife como para esfaquear alguém. Tudo depende da finalidade que lhe damos. Se a tecnologia for bem conduzida é estruturalmente boa. Se for mal conduzida, como tem acontecido em alguns casos, é má. É um paradoxo que nunca se resolve na plenitude porque depende da vontade política dos homens. Fazem-se grandes manifestações para combater a fome em África. O Live Earth pôs em palco dezenas de músicos para alertar para o problema. Foi um esforço desnecessário. As duas pessoas mais ricas do Mundo têm uma fortuna superior ao PIB dos 15 países mais pobres. Perante esta realidade, concluo que o contrato social não está a ser bem cumprido.
 
Raul Junqueiro no livro A Idade do Conhecimento escreve: “A alfabetização dos dias de hoje vai muito para além da aprendizagem da leitura e da escrita implicando, obrigatoriamente, o suporte digital das mesmas, inclusive o respectivo tratamento e manuseamento.” As pessoas estão dispostas a fazer um esforço para adquirir estas competências?
Creio que sim. Tenho trabalhado com infoexcluídos da 3ºidade, que ficam completamente deslumbrados quando são confrontados com a poderosa realidade da informática e da Internet. Acredito que, se houver um marketing social adequado, em torno da política de educação para as TIC, a adesão de várias gerações de cidadãos será muito significativa.
 
“A Internet pode criar um verdadeiro processo educomunicativo”
 
Michael Dertouzous no livro O Que Será? afirma que “não existe uma verdadeira infra-estrutura de informação disponível”. Concorda?
Sim, se essa infra-estrutura existisse não encontraríamos em Portugal jovens de 20 anos analfabetos. Alguns nem sabem assinar o nome, por mais que nos doa e nos custe. Estamos no século XXI. Pertencemos ao clube dos 27 mais ricos e, apesar disso, a 150 quilómetros há gente que não sabe assinar o nome. Com realidades destas, só posso concluir que a infra-estrutura não está, de facto, montada.
 
Pessoas de diferentes classes sociais, etnias (que apenas frequentavam locais onde podiam encontrar pessoas com as mesmas características), actualmente podem aceder e comunicar numa mesma sala de chat, escondendo a sua identidade por detrás de um nickname. Pode a Internet acabar com o estigma social?
Pode ajudar fortemente por uma razão: a Internet pode criar um verdadeiro processo educomunicativo. A linguagem da Internet pode inovar a comunicação entre os povos. Se enviar um smiley a um chinês, mesmo que não conheça nada de mandarim nem ele de português, ele percebe que estou aparentemente satisfeito. Há aqui uma codigologia universal que pode resultar em prol dos mais excluídos se a Internet for devidamente apropriada. Contrariamente ao que se diz sobre a geração da “tribo do polegar”, aquela que usa fundamentalmente o sms, ela escreve muito mais do que nós ou os nossos pais. A ideia de que agora não se escreve, nem se utiliza bem a língua, está totalmente errada. Nunca se escreveu tanto como hoje. Isto é um benefício da Internet. Podem dizer “mas há expressões abreviadas que tornam a escrita completamente diferente”. Não faz mal. Podem escrever café com “kfé”, isso só recria a língua. Se, em termos de eficácia, eficiência e rapidez, um jovem quiser escrever café pela nova forma educomunicativa não há problema desde que não se esqueça da escrita tradicional. É uma vantagem. Os jovens dizem mais em menos tempo, o que é óptimo. O tempo é um bem precioso na nossa sociedade.
 
“A nossa riqueza assenta na riqueza do Médio Oriente”
 
O Reginaldo escreve: “O 11 de Setembro consegue reproduzir a face mais negra da Lua, bem à vista da Terra, efeito da globalização, aliada ao uso das tecnologias disponíveis e pela mão do terrorismo.” Considera o terrorismo uma consequência directa da globalização?
Sim, é uma consequência directa da globalização e da política externa norte americana. O Mundo está mais inseguro. O inferno está na terra. O acto perfeitamente fratricida que matou 4500 pessoas no World Trade Center, o chamado 9/11, é um acto hediondo e condenável a todos os preços. Tanto direito tem um norte-americano de chorar a morte de um ente querido como uma mãe iraniana, paquistanesa ou iraquiana, de chorar a morte do seu filho. No Ocidente, olhamos para a guerra de forma mórbida. Estamos confortavelmente instalados na nossa sala ou cozinha, a comer um grande bife com o ar condicionado ou o aquecimento central, e olhamos para aquilo como uma espécie de telenovela. Advém da globalização. Há um choque de civilizações entre o Ocidente e o Oriente porque toda a riqueza ocidental é construída sobre um denominador comum oriental: o petróleo. A nossa riqueza assenta na riqueza do Médio Oriente. Não é nossa, é deles. Este é o grande ressentimento. Na década de 60, no Irão, as miúdas andavam de mini-saia e os rapazes de mota como o Ryder na Harley Davidson. A partir da revolta do Xá, isto deixou de existir porque se entendeu ser uma cultura decadente que em nada contribuía para os valores de cidadania. A globalização é causa e consequência do terrorismo. O terrorismo é uma espécie de franchising, é o McDonald´s do mal. Em qualquer canto do mundo está um terrorista pronto a actuar. São pessoas aparentemente inofensivas, de aspecto vulnerável, que podem cometer males incontroláveis. Acredito que, num futuro próximo, vão surgir questões a este nível completamente incontroláveis. Há uma lógica inversa. No 11 de Setembro, a Al-Qaeda disse ao Ocidente: “Os nossos jovens têm tanta vontade de morrer quanto os vossos de viver.” Esta lógica não pode ser compreendida segundo os valores do Ocidente. Os Beatles escreveram Strawberry Field: “Let me take you now, because I am going to strawberry field.” Este “campo de morangos” é o campo idílico onde quem não tem nada, nada tem a perder. É aqui que os jovens terroristas se revêem já que, aparentemente, têm sete virgens no céu à sua espera. Quanto melhor fizerem na terra, mais serão compensados no céu. É uma lógica calvinista ao contrário, uma realidade que a globalização fomentou.
 
publicado por Vanessa Rodrigues às 16:08
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